RAJASTÃO: A TERRA DOS PALÁCIOS
ribbon-web

RAJASTÃO: A TERRA DOS PALÁCIOS

October 17, 2011 in Articles, Blog, News

O amor é a força mais abstracta, e também a mais potente, que há no mundo.Mahatma Gandhi
 
Com a chuva a cair teimosamente e o termómetro a registar uma temperatura superior a 30 graus, já não tinha grandes dúvidas, mas ao ter o primeiro contacto com o caótico trânsito de Nova Delhi, tenho a certeza: Estou de novo na Índia!
A caminho do hotel e tendo ainda bem presente as memórias da viagem que aqui tinha realizado 3 anos antes, coloco a mim próprio a seguinte questão: Que sentimento nutro por este país, para de novo o eleger como destino? Sentirei eu necessidade de lidar com esta ruptura do convencional ocidental?
As viagens de carro são o expoente máximo desta ruptura. Nas auto-estradas o histerismo dos encontros com camelos, vacas e búfalos, rapidamente dão lugar à habituação. Os quase choques frontais que tanto pânico em mim geravam nos primeiros dias, rapidamente são substituídos por um sentimento de integração no quotidiano indiano.
Tudo isto vivido e experienciado na primeira pessoa em apenas 13 dias, mas caro leitor, este tempo na Índia é o equivalente a um mês de vivência em qualquer parte no mundo!
Mesmo ciente da tremenda avalanche de sentimentos e emoções que iria encontrar, a verdade é que não hesitei por um momento em voltar, e cheguei ao fim desta jornada com uma certeza: irei regressar!
A meio da viagem, o Mr. Khan, o motorista que me acompanhou nesta incursão pelo Rajastão, exclamou: “Nuno, não te surpreendas com o que vês no dia-a-dia, pois estás na Índia e aqui, tudo é possível!” Esta frase do meu amigo Khan marcou-me para o resto desta aventura, porque como alguem referiu: visitar e conhecer a Índia é uma aventura!
Mas nem tudo é o que parece, pois esta mesma sociedade onde quase tudo é permitido e possível, é a mesma que ainda assente em valores morais bastante ancestrais, não permite que duas pessoas se casem pelo sentimento que as possa fazer unir, fazendo com que o casamento por amor seja quase uma utopia…
Esboço do itinerário pelo Rajastão, feito pelo Mr. Khan
O Rajastão
Se existe local na Índia onde a luxúria e a riqueza que marcou a época dos marajás é visível, esse lugar é o Rajastão. Entre sumptuosos e deslumbrantes palácios, castelos e monumentos, aliado ao facto de a maioria das suas cidades estarem localizadas no deserto do Thar – o que lhes confere uma mística e uma áurea única -, fazem deste estado, o Rajastão, o mais visitado e procurado em toda a Índia.
Desenganem-se todos aqueles que acreditam que o Rajastão se resume a isso, pois a sua grande mais valia são as pessoas. Conhecer e conviver de perto com os costumes e hábitos locais, é das experiências mais enriquecedoras e gratificantes que se podem encontrar por aqui.
Apesar da densidade populacional que caracteriza a Índia, visitar este estado e as suas principais atracções não implica ter de passar por filas intermináveis como quando se visita a Torre Eiffel ou a Capela Sistina.
Agra e Fatephur Sikri
Ao chegar a Nova Delhi – a capital -, e após um dia de descanso, parti de imediato para Agra. Não fazendo parte do Rajastão, visitar esta cidade torna-se obrigatório, pois é nela que se encontra o deslumbrante Taj Mahal! Além de uma visita ao interior do monumento, alugar um meio de transporte torna-se obrigatório, de forma a visitar a outra margem do rio Yamuna e ser contemplado com uma vista deslumbrante sobre o templo, proporcionando belíssimas imagens ao nascer e pôr-do-sol.
 
Taj Mahal – Agra
O Forte de Agra é um local também ele agradável e merece uma visita, que mais não seja, pela bonita vista que se tem sobre o Taj Mahal.
A poucos kilometros de Agra, encontra-se Fatephur Sikri, a cidade fantasma. Não se assuste o leitor, não se encontram por lá fantasmas – pelo menos eu não os vi -, mas ao invés, tem-se a agradável surpresa de encontrar uma cidade que por ter sido habitada apenas durante 20 anos, apresenta um excelente estado de conservação, permitindo ter uma ideia exacta e precisa sobre a forma como nela se vivia. Depois de deixar Fatephur Sikri, rumo finalmente em direcção ao Rajastão…
Pushkar – A cidade sagrada
Reza a lenda que Brahma – um dos deuses da trindade hindu -, após ter vencido em batalha um demónio, deixou cair uma flor de lótus em Pushkar, dando origem à criação do lago Pushkar. Este local sagrado, é usado por centenas de fiéis hindús para a sua habitual higiene diária, proporcionando imagens de belo efeito.
Confesso que estava bastante curioso com a visita a Pushkar, ou não fosse esta uma cidade sagrada, e muito provavelmente o único local do mundo onde apenas se encontra comida vegetariana. Dei comigo a pensar: conseguiria uma loja da famosa cadeia alimentar de hambúrguers Macdonald´s reinventar-se e sobreviver aqui?! Acredito que sim, pois pelas ruelas da cidade, degustei um fabuloso hambúrguer vegetariano. O mesmo já não deveria acontecer, por exemplo, com a “nossa” cerveja Sagres, pois as bebidas alcoólicas aqui são estritamente proibidas.
 
Pelas ruas de Pushkar
Mas não há bela sem senão e deambulava eu pelas ruas de Pushkar, quando algo despertou a minha curiosidade. Em muitos dos bares e restaurantes da cidade facilmente se encontrava a indicação de servirem a famosa bebida indiana Lassi, mas em versão de “Special Lassi”. Por momentos ainda pensei: Terá o Special One interferido na receita desta bebida?! Com a minha curiosidade, cada vez mais aguçada sobre as diferenças entre a dita “Normal Lassi” e a “Special Lassi”, resolvo entrar num bar e questionar um dos empregados. Para minha surpresa sou informado que é feita da mesma forma que as demais, apenas com uma diferença: aos ingredientes tradicionais é acrescentado marijuana. Ainda me ocorreu se estaria em Pushkar, a cidade sagrada, ou em Amesterdão, a cidade louca?! E para satisfazer a curiosidade do caro leitor, não…não experimentei a “Special Lassi”.
Udaipur – A Veneza do oriente
Ainda conseguia avistar Pushkar pelo retrovisor e já as saudades eram imensas, mas não havia tempo para saudosismos. Era essencial ler mais qualquer coisa sobre a próxima cidade a visitar: Udaipur!
De todas as cidades que visitei na Índia, Udaipur é sem dúvida a mais romântica ou não fosse apelidada de Veneza do Oriente. É um lugar aprazível e acolhedor, onde é indispensável um cruzeiro pelo lago Pichola, onde se tem a oportunidade de ver de perto o hotel Lake Palace, localizado no centro do lago. Este hotel ficou mundialmente conhecido por ali ter sido rodado parte do filme 007-Octopussy.
 
Multidão em Udaipur
Os passeios à beira do lago Pichola, proporcionam momentos agradáveis de lazer, bem como as oportunidades fotográficas nas suas margens são imensas.
Estava ainda em Udaipur, quando o calendário hindu assinalava uma das datas mais importantes do ano: o nascimento de Krishna! As celebrações estenderam-se a todo o mundo hindu e foi um privilégio tremendo assistir aos festejos que assinalam o nascimento de um dos deuses mais querido entre a população. Entre danças tradicionais, jogos e cantares locais, a festa durou até altas horas da madrugada. Entenda-se altas horas da madrugada como 10 da noite.
Uma curiosidade sobre Krishna, é o facto deste deus ter cerca de 6000 namoradas. O leitor ainda dúvida que na Índia tudo é possível?!
Jodphur – A cidade azul
A estadia nesta cidade fica marcada pelo jantar no célebre restaurante Trio, recomendado pelo guia “Lonely Planet” – na Índia essa recomendação significa muito -, não só pelas iguarias que apresenta, mas sobretudo pelo descarregar de emoções que esse momento tão particular significou.
Ainda antes do repasto no Trio, tornei-me na atracção maior da principal praça de Jodhpur, quando num acto de loucura, resolvi montar o tripé e fazer fotografia nocturna no meio da rua mais movimentada da cidade.
 
Jodphur à noite
Como na Índia tudo é possível – bem que o Kahn me avisou -, não só os carros, motas, vacas e camelos se desviavam de mim, como ainda tinha um grupo de pessoas a seguirem de perto todos os meus movimentos.
Na zona histórica, a maioria dos hotéis tem os respectivos restaurantes localizados no terraço, proporcionando magníficas vistas sobre sobre o casario em tons de azul, bem como sobre o seu forte altaneiro, que precipitado sobre a cidade transmite sempre uma sensação de protecção.
As casas pintadas de azul, são a imagem de marca de Jodphur, fazendo lembrar a cidade marroquina de Chefchaouen…dito desta forma, até parece que eu alguma vez visitei esta cidade Marroquina!
Jodphur é, ainda, o local ideal para gastar algumas rupias na compra de especiarias, pois segundo os entendidos, aqui são feitas as melhores de toda a Índia.
São 6.30 da manhã e no telemóvel começo a ouvir novamente a música “Show People Labels” da Fergie – genérico do filme “O Sexo e a Cidade I”.
Depois de 6 dias seguidos a ouvir aquele som, já sabia que estava na hora da alvorada.
Banho e pequeno-almoço tomado, bagagem pronta e tempo de ir para o coração do deserto Thar ao encontro de Jaisalmer.
Jaisalmer – A cidade de ouro
Conhecida como a “Cidade de Ouro”, Jaisalmer, pela sua beleza, localização e construção é a jóia da coroa do Rajastão.
O forte alberga a zona histórica da cidade, onde se encontram deslumbrantes havelis. Os havelis eram propriedade de antigos comerciantes de ópio e, na realidade, não são mais que luxuosos palácios onde é visível todo o requinte, riqueza e extravagância dos seus proprietários. Fiquei, particularmente, impressionado com as paredes exteriores dos palácios, meticulosamente trabalhados, mais parecendo uma renda feita à mão.
Devido a um elaborado sistema de circulação de ar, estes palácios são extremamente frescos, comparando com as temperatura que se verificam no exterior. Muitas vezes essa diferença pode ultrapassar os 10 graus. Relembro que na época seca, as temperaturas em Jaisalmer podem chegar aos 50 graus…
É obrigatório um passeio de camelo pelo deserto do Thar e terminar o dia a dormir nas suas areias e contemplar um magnífico céu estrelado. A concentração de estrelas é tal, que parecia ser possível tocá-las…
Nas dunas do deserto Thar – Jaisalmer
Jaisalmer foi, também, palco de uma das situações mais bizarras que ocorreu durante a viagem. Visitava o lago Gadisagar, quando dou por mim rodeado de crianças a tentarem venderem-me pão do género “Panrico”. De início achei a situação, no mínimo, estranha mas uns metros á frente tudo se clarificou. Centenas de peixes de boca aberta e amontoados na berma do lago, onde o nível do mesmo estava mais baixo, à espera do alimento – o tal Panrico. Não sei definir que género de peixe seria mas, certamente, uma espécie que eu nunca tinha visto anteriormente, dado o tamanho da sua enorme boca.
Lago Gadisagar – Jaisalmer*

A Índia voltava a surpreender! Este estranho episódio, trouxe á memória um outro, ocorrido uns dias antes em Fatephur Sikri: um rapaz, que a troco de 10 rupias, mergulhava num lago em que a água estava completamente verde de estar há tanto tempo parada…A viagem aproxima-se a passos largos do seu fim mas antes de regressar a Nova Delhi, chegava o dia de conhecer a capital do Rajastão: Jaipur.
Jaipur – A cidade rosa
Jaiupur – além de ser a capital deste estado – é também das cidades mais encantadoras do Rajastão e é mundialmente conhecida como a cidade côr-de-rosa, quando em 1876, o seu marajá a mandou pintar de rosa, aquando da visita do Príncipe de Gales.
 
Rostos do Rajastão – Jaipur
Das atracções que tem para oferecer, torna-se obrigatório uma visita ao templo dos macacos, ao forte de Amber e ao palácio Hawa Mahal. Devido ao cansaço acumulado dos vários dias de viagem, optei por passar grande parte da tarde na berma do lago Man Sagar, a contemplar o palácio Jal Mahal e esperar pelo ocaso do sol que me permitisse fazer algumas imagens. Antes do descanso, ainda tive tempo de ir regatear num dos muitos bazares da cidade, visto Jaipur ser um dos principais centros de comércio de toda a Índia.
O ocaso da aventura
Na manhã seguinte, dia 27/08/2011, despedia-me de Jaipur e parti em direcção à capital do país, Nova Delhi. Algumas horas em Delhi e tempo de regressar a Lisboa, deixando para trás muitas experiências e emoções indescritiveis, que ficam para sempre gravadas na minha memória.
Um agradecimento especial a quem comigo privou nesta autêntica aventura por esta pátria de nomes incontornáveis dos tempos modernos, como Ghandi ou madre Teresa de Calcutá.
 
Texto e imagens por Nuno Luís
* Imagem por Susana Pires

Tags: , , , , , ,